Um retiro de escrita em Cadaqués —
03 a 12 de março de 2027.
Retiro literário é a oportunidade de tomar para si o tempo e o espaço para escrever — e, ao mesmo tempo, formar um pequeno grupo de pessoas com um interesse em comum:
a escrita e a criação.
A ideia de propor oficinas de escrita nesse lugar único nasce de Veronica Botelho — editora, escritora e psicóloga — que encontra na escritora, tradutora e professora Nara Vidal o propósito de uma parceria ideal para transformá-la em programa. Numa visita à Catalunha, Nara ouviu de Veronica o desejo de criar uma experiência capaz de oferecer a cada participante uma vivência de imersão e de escrita em uma das paisagens mais singulares do Mediterrâneo.
Restava idealizar um programa que reunisse o conhecimento e a experiência de Nara como professora de escrita à efervescência cultural de Cadaqués. Surgiu assim um diálogo entre Shakespeare e o Surrealismo.
“Cadaqués tornou-se território de encontro, experimentação e criação — um espaço fértil para imaginar outras formas de olhar o mundo.”
Ao longo do século XX, Cadaqués tornou-se território de encontro, experimentação e criação para artistas que encontraram na paisagem, no isolamento e na particular atmosfera do lugar um ambiente propício para imaginar outras formas de olhar o mundo.
A partir desse contexto, Nara instiga a criação narrativa, aproximando literatura e artes visuais e investigando aquilo que o surrealismo pode provocar na escrita: o estranhamento, o deslumbre, o incômodo, o sonho, o inesperado.
Dalí, por exemplo, cultivou ao longo da vida um profundo interesse pela obra de Shakespeare, criando trabalhos que refletem tanto seu olhar experimental quanto sua aproximação com elementos da psicanálise — um campo fértil para a imaginação literária. Figurinos, cartazes e interpretações de cenas cômicas e trágicas podem nos servir como ponto de partida para o diálogo entre a expressão visual e plástica e as narrativas e personagens de Shakespeare.
Esse percurso se amplia ainda para outros olhares ligados à vida artística do século XX, como os de Ángeles Santos, Maruja Mallo e Miró. Por meio de suas obras, formas de ver e rupturas estéticas, buscaremos diferentes caminhos para provocar a escrita e criar textos inéditos durante a primeira edição do Retiro Literário de Cadaqués.
Durante essa imersão criativa, convidamos as participantes ao estudo, à observação e ao risco — para traçar suas próprias percepções através de um texto inteiramente escrito durante os dias de imersão.
Além das atividades, que são aquisição de repertório para o escritor, teremos, sobretudo, tempo e espaço para escrever: um período dedicado unicamente à criação, acompanhada de estudo e experiência criativa, intelectual e sensorial.
Durante 8 dias, vamos visitar o Teatro-Museu Salvador Dalí, em Figueres, e a Casa Salvador Dalí, em Portlligat; percorreremos o Cap de Creus, paisagem ligada ao imaginário surrealista e cenário de filmes como L’Âge d’Or, de Luis Buñuel, e O Farol no Fim do Mundo, inspirado no romance de Jules Verne; caminharemos pelas vielas de Cadaqués, por onde passaram figuras como Agnès Varda, Marcel Duchamp e Federico García Lorca; e nos reuniremos para estudo e leitura de trechos das obras de Shakespeare que dialogam diretamente com o surrealismo.
O programa terá como complemento breves intervenções baseadas na teoria da Multipercepção Cultural, com a editora e pesquisadora Veronica Botelho, que propõe ativar e conectar os sentidos, ampliando a percepção — neste caso, como matéria para a escrita. Técnicas de mindfulness, estímulos visuais, degustação de vinhos e percurso gastronômico funcionarão como dispositivos de sensibilização e criação literária, ajudando as participantes a transformar percepção, memória e experiência em linguagem.
As aulas, discussões, exercícios e a escrita acontecerão em locais diversos — o restaurante Cap de Creus, a Societat l'Amistat, cafés e pontos escolhidos pela curadoria.
Todos os textos escritos durante o programa serão preparados e publicados numa revista literária da editora Cosa Nova 17488, em português e catalão.
Cadaqués é uma das paisagens mais singulares do Mediterrâneo: uma vila branca entre o mar e as montanhas do Cap de Creus, marcada pelo isolamento, pelas rochas esculpidas pelo vento, pelas enseadas de água profunda e pela presença constante da tramuntana, que limpa o céu e torna a luz quase irreal. Durante séculos, o mar moldou a vida do lugar — nos barcos, na pesca, nos gestos cotidianos —, enquanto a geografia preservou uma beleza áspera, luminosa e difícil de domesticar.
Talvez por isso, ao longo do século XX, Cadaqués tenha atraído tantas pessoas ligadas à criação. Não apenas Dalí, que fez de Portlligat a sua casa-labirinto, mas uma constelação que atravessa a pintura, a literatura, o cinema e a edição: Picasso, Miró, Maria Martins, Buñuel, Duchamp, Richard Hamilton — e mulheres fundamentais para o imaginário do lugar, como Gala, Anna Maria Dalí, Rosa Leveroni, Beatriz de Moura, Esther Tusquets e Carme Balcells.
Entre ruas brancas, mar azul de vidro, rocha quente e vento norte, o vilarejo oferece ao retiro uma matéria viva para a escrita: um lugar onde os sentidos se encontram, onde a beleza convive com o caos e onde a criação parece nascer justamente desse equilíbrio instável entre silêncio, luz e movimento.
Nascida em Minas Gerais, tem livros publicados no Brasil, Portugal, Espanha, Inglaterra, França, Itália, Países Baixos, Catalunha e México. Venceu o Prêmio Oceanos e o APCA, e foi finalista dos prêmios São Paulo de Literatura, Jabuti e André Malraux (França). Foi a primeira autora mulher convidada para a residência literária da Fundação D. Luís I, em Cascais (2021). Escreve crítica de literatura e cinema para as revistas 451 e Cult, é professora de escrita criativa e tradutora de Katherine Mansfield, Virginia Woolf e Shakespeare, além de curadora do selo Inglesa. Entre seus livros estão Eva, Sorte, Puro, Mapas para Desaparecer, Shakespearianas e, em breve, Previsão do tempo para Doralice Antunes. Idealiza o programa de acompanhamento literário Escrever e vive entre Inglaterra, Brasil e França.
Nascida em Floriano, no Piauí, formou-se em Psicologia pela Università degli Studi di Firenze, com pós-graduação em Psychology and Neuroscience of Mental Health pelo King's College London. Escritora, psicóloga, editora e tradutora, é fundadora da Cosa Nova 17488 — editora dedicada à circulação entre as literaturas catalã, portuguesa e italiana, galardoada com o Premi Talent 2025 de Art i Literatura. Desenvolveu a teoria da Multipercepção Cultural, que articula neurociência, antropologia, sociologia, psicologia cultural e autoetnografia. Editora da revista cadaquesenca Sol Ixent. Escreve em cinco línguas e traduz para o catalão. Vive em Cadaqués.
A experiência se constrói a partir de alguns eixos.
Uma vila branca situada entre o mar e as montanhas do Cap de Creus. O contraste entre as casas caiadas, as rochas, as enseadas e o azul profundo do Mediterrâneo cria uma paisagem de grande força visual e sensorial.
A geografia do lugar é marcada por formações rochosas esculpidas pelo vento e pelo mar. A tramuntana, vento do norte que limpa o céu e transforma a luz, participa diretamente da sua atmosfera.
Durante séculos, o mar moldou a vida da vila: a pesca, os barcos tradicionais, os ouriços, os guisados de peixe, os percursos pelas calas e a relação cotidiana com o Mediterrâneo fazem parte da memória e da identidade local.
Ao longo do século XX, esse canto do Mediterrâneo atraiu uma constelação ligada à arte, à literatura, ao cinema, à edição e ao pensamento. De Ramon Pichot e Eliseu Meifrèn a Pablo Picasso, que passou ali o verão de 1910; de Federico García Lorca, Salvador Dalí e Anna Maria Dalí ao círculo surrealista que chegou em 1929 com Gala, Paul Éluard, Luis Buñuel, René Magritte e Joan Miró; da Portlligat de Rosa Leveroni às presenças posteriores de Marcel Duchamp, Richard Hamilton, Rosa Regàs, Carme Balcells, Beatriz de Moura e Esther Tusquets, o vilarejo foi construindo uma história de liberdade e invenção.
Entre todos esses nomes, foi Dalí quem transformou essa relação com o lugar em permanência, fazendo de Portlligat uma extensão viva de sua obra e de seu imaginário.
Foi em Portlligat, baía situada dentro do município, que Dalí construiu sua casa-labirinto a partir de uma antiga barraca de pescadores. Ali viveu e trabalhou durante décadas, fazendo da paisagem, da luz e do isolamento parte essencial de sua obra.
Mais do que cenário, o lugar é matéria viva para a criação: um espaço onde imagem, palavra, memória, desejo, vento e mar atravessam o corpo e se transformam.